Mostrando postagens com marcador Finitude. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Finitude. Mostrar todas as postagens

20 de março de 2011

“Os conselhos de uma psicóloga como jogar com o tempo” “O divã e a psicologia saem às vezes mais eficazes do que o uso do bisturi”.

Revista: Le Nouvel Observateur – nº 2400 de 4 de novembro 2010

Assunto da Capa – Ficar Jovem
“Os conselhos de uma psicóloga como jogar com o tempo”
“O divã e a psicologia saem às vezes mais eficazes do que o uso do bisturi”.

- REVISTA: Com a idade, o tempo parece acelerar. Como lutar contra esses sentimentos?
- Muriel Flis Treves: Não é o tempo que acelera. Quanto mais envelhecemos, mais temos consciência que o fim se aproxima. É isso que cria angústia, mas é possível pensar a nossa vida de outro jeito. De imaginá-la, por exemplo, como uma viagem: tem aqueles que são obcecados pelo fim e os que não aproveitam de nada e aqueles que, ao contrário, desfrutam ao máximo de cada instante. Na vida, é a mesma coisa: a perspectiva da finitude pode dar consistência ao tempo que nos resta.
- REVISTA: A imagem pejorativa que nossa sociedade dá às pessoas idosas não melhora nada...
- Muriel Flis Treves: De fato, a velhice perdeu o seu brilho. Antes, era sinal de sabedoria, de profundidade, de experiência. Hoje ela esta associada à perda, à destruição e à decadência. Agora ficou quase vergonhoso ser velho e, portanto mais difícil viver esta etapa da vida. Entretanto, nada é definitivo. Então o trabalho psicanalítico pode ajudar. No inconsciente reina uma atemporalidade, um tempo não mensurável. Em nossa psique, cada um é capaz de fazer idas e voltas na linha do tempo. Ir por exemplo a procurar as lembranças da infância esquecidas para ligá-las a certos episódios do presente e voltar a confiar em si. Graças a este processo, as pessoas não se sentem mais presos à flecha irreversível do tempo que passa. O ser humano não é definitivo, ele está sempre se transformando e possui a capacidade constante de se refazer.
- REVISTA: Assim mesmo, o tempo pesa mais sobre as mulheres do que sobre os homens?
- Muriel Flis Treves: As mulheres são naturalmente mais sensíveis à percepção dos anos que passam. Seu tempo biológico é pontuado pela menstruação, depois pela maternidade e enfim pela menopausa. Sempre foi habituada a ser tratada em função da sua idade. Além disso, em nossa sociedade, a feminilidade está associada à beleza, à juventude. A prova: no século XVIII, não era normal o embelezamento para as mulheres idosas, isto acontece, por volta dos 30 anos.
- REVISTA: Nos dias de hoje, felizmente, elas são consideradas velhas mais tarde...
- Muriel Flis Treves: É verdade. Elas o reivindicam. Belas mulheres de 50 ou 60 anos, como as atrizes Demi Moure ou Sharon Stone, exibem-se com prazer. A mensagem que elas transmitem é claramente esta: “Vejam! Não mudei”. A medicina também ajuda a suspender o tempo. Com o congelamento dos óvulos, daqui a pouco, a medicina oferecerá às mulheres que ultrapassaram a idade a perspectiva de maternidade. Isso reforça a ideia que as mulheres podem brincar com o tempo.
- REVISTA: A cirurgia plástica é outra ferramenta...
- Muriel Flis Treves: Fazer desaparecer suas rugas dá ilusão que se é capaz de apagar os sinais reveladores dos anos acumulados. De fato, começamos a nos sentirmos velhos fisicamente quando não conseguimos mais aceitar os índices que aparecem no nosso corpo. O botox ou as injeções de colágeno são bons meios de trapacear. Isto não é um problema se for decidido de uma maneira lúcida. Há muitos fracassos, porque as expectativas são grandes demais. As pessoas estão persuadidas que um simples corte de bisturi vai transformar suas vidas e fazer com que, por exemplo, encontrem um grande amor..
- REVISTA: Nos homens, a angústia da idade se traduz pela síndrome da idade do lobo?
- Muriel Flis Treves: No homem, a exigência do desejo faz às vezes irrupção no que se chama a crise da “meia idade”. Quando ele olha seu casamento, sua mulher, ele não encontra mais a sua juventude. Mudar de vida, de parceira, lhe dá ilusão que poderá recomeçar tudo de novo. E quanto mais jovem sua parceira, mais jovem se sentirá, já que ela é o seu espelho. É o narcisismo: ele tira a juventude dele da outra. Sinal dos tempos: cada vez mais, as mulheres gostam também de serem vistas com homens mais jovens.
* Muriel Flis Treves é psiquiatra e psicanalista, é uma das organizadoras do simpósio G Y P&Y “A irresistível corrida do tempo” que aconteceu na faculdade de medicina de Paris nos dias 3 e 4 de dezembro de 2010.

“Escolhi a tradução desse assunto por achar interessante que o tema ”ficar jovem” é procurado por homens e mulheres, em diferentes classes sociais e em vários países. A busca eterna da juventude é nunca chegar próximo da velhice. “

Suely Tonarque

17 de maio de 2010

TU TENS UM MEDO

REFLEXÕES SOBRE AMOR E FINITUDE
Maria Inês Falcâo

TU TENS UM MEDO (fragmento)
Cecília Meireles

Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.

Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.


Na ânsia do final feliz, quantas vezes nos esquecemos de viver o caminho...

As questões do envelhecimento se interpõem aos olhares atentos dos alunos da turma de 2010 do Curso de Psicogerontologia: Fundamentos Teóricos, coordenado magistralmente pela Profa. Delia Catulo Goldfarb.
Diante da necessidade de compreender a velhice dos nossos clientes de modo a instrumentalizar a prática, vamos descobrindo o velho que existe em nós e que não queremos ver.
O velho, o inútil, o desmiolado, o sem-razão, vai dando lugar ao eu-mesmo improdutivo em um mundo de capitalizações. Quem é o velho? O outro? Porque hoje ocupamos um lugar na sociedade de consumo? Percebemos que o velho, o antigo, é o que está em desuso e, então, ele deve ser abandonado à própria sorte, abrindo espaço para as novas tecnologias e ao consumo que também nos jogará na obsolescência capital...
A roda social girando e decepando cabeças agonizantes nos faz pensar em nossa própria finitude, no custo-benefício do investimento no que decairá, se ultrapassará, passará.
Mas, então, quando isso ocorre? Quando o ritmo produtivo exige energia sem fim, biologização do ser que deve consumir o desejo inalcançável, projetado no futuro. Mas o futuro do velho já é o presente... O que projetar mais à frente, se o que deseja começa a tomar o contorno do real? E o real deita fora o sublime do desejo... Eu, que tudo podia, investido triunfalmente sobre todas as coisas, a majestade do mundo, fui me reconhecendo com possibilidades e, agora, vou me encurralando nas impossibilidades, marcado pela realidade que me aponta limites, cansaço, mais idade... vejo então meu corpo, máquina desgastada pelas voltas dadas, pelos mecanismos engendrados tantas e tantas vezes, pelo ritmo lentificado do que já foi e viu e fez e falou e calou e hesitou e sorriu e chorou e amou e pensou e calou... Ainda dará tempo? Ainda será possível investir energia para conceber? Ou só restará ceder? Ceder ao novo, ao lógico, ao tecnológico, ao moderno e deixar o caminho livre para os jovens?
Mas e o tempo deles? Certamente também virá, será o mesmo e girará novamente a porta para o próximo vigoroso homem ocupar o lugar do velho, desinvestido e desistido...
O que temos aqui? Impõe-se-me a necessidade de contemplar esta imagem... Essa mirada no espelho remete aos temores e angústias da identificação, aos medos e desejos deixados em algum canto da memória, os quais podem retornar até mais intensamente quando os projetos futuros se tornarem presentes ou, até, passados...
Por outro lado, a possibilidade de subjetivação e de significação do viver nos instrumentaliza para o momento do porvir, nos aproxima do velho dentro de nós de modo a tornar possível a comunicação com o semelhante: o velho, ou melhor, o "eu-mesmo-espelhado no futuro".

Por fim, descubro que cuido de ti para cuidar de mim...

Texto elaborado por Maria Inês Falcão, psicóloga, aluna do curso de Psicogerontologia: Fundamentos Teóricos (COGEAE-PUC-SP)